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08/06/2019 Por Diego Tedim 0

Instabilidade no comando técnico : resumo do São Paulo nos últimos anos (OPINIÃO)

Desde 2008, o São Paulo teve 19 técnicos diferentes. Um número altíssimo comparados aos 18 comandantes do maior rival, Corinthians, desde 2003, ou seja, 5 anos a mais.

Isso é ainda mais grave pela inexistência de um DNA próprio. Alternamos de treinadores defensivos a outros extremamente ofensivos de um dia pro outro. Substituímos treinadores que utilizam-se de experiência a outros que optam por trabalhar com a “molecada”, sem uma transição. Tudo isso de modo precipitado. Tal alternância constante de estilo de jogo é muito maléfica ao clube, ao passo que impossibilita-se o desenvolvimento de um ciclo de trabalho completo sem interrupção. Em 2015, contratou-se um treinador inovador e estrangeiro, Juan Carlos Osório. Mas, logo em seguida, contratou-se um treinador nacional e experiente, Doriva. Que São Paulo fomos em 2015? O inovador com projetos a longo prazo de Osório, ou o menos inovador mas ainda assim eficiente de Doriva? Basta olhar o histórico do clube que você encontrará trocas de técnicos com estilos ainda mais opostos que no caso do exemplo citado, mais brando.

Juan Carlos Osorio, ex-treinador do São Paulo. Foto : Divulgação oficial São Paulo FC

Para efeito de comparação, falarei de nosso rival : o time de Itaquera de 2010 a 2016 manteve o mesmo estilo de jogo na Comissão Técnica. Começou com Tite e seu DNA de time raçudo e defensivo, no qual uma vitória de 1×0 já era goleada. Mesmo com sua saída em 2013, a mesma linha de trabalho foi mantida por Mano Menezes (também com característica de um time raçudo e defensivo) em 2014. Por fim, em 2015, houve o retorno de Tite, cuja metodologia instaurada seria mantida até 2016. Neste período, venceu 1 Libertadores (2012), 1 Mundial (2012), 1 Recopa (2013), 2 Brasileiros (2011 e 2015) e 1 Paulista (2013).

Já no ano de 2016, tudo foi diferente. Com a saída de Tite, o clube passou por Cristóvão Borges e Oswaldo Oliveira. Duas trocas muito próximas de comando técnico, isso sem contar Carille que assumiu interinamente neste mesmo ano. Não à toa, 2016 foi marcado como nada vitorioso.

Daí em diante, fica fácil. Carille retomando o DNA do time da era Tite-Mano Menezes vence o Paulista e o Brasileirão de 2017, além do Paulista de 2018. Tem, contudo, uma transferência ao exterior e o clube de novo abala com Osmar Loss e Jair Ventura. Por fim, Carille retorna e o Corinthians segue firme e forte em 2019.

É importante perceber, em meio ao exemplo supracitado, a continuidade de um esquema de jogo. Até mesmo no ano de 2016, nada positivo ao Corinthians, o mesmo tentou tratar de manter seu estilo defensivo e raçudo de jogar: Cristóvão Borges, Oswaldo Oliveira… E em 2018 também, quando o time oficializou dois técnicos da nova geração, o que inicialmente parece romper com a maneira de jogar, mas ambos naturalmente mantiveram um DNA defensivo – Loss, por exemplo, já era da casa. Há, em curso, pelo menos desde 2010, um projeto de estabelecimento de um padrão-Corinthians de jogar, a maior carência do São Paulo nos últimos anos. Neste caso, a manutenção deste padrão se deve, creio eu, à realidade financeira do clube, que não consegue realizar contratações de peso. Assim, seja por conveniência ou por falta de opção, o time de Itaquera mantém jogadores da base, jogadores que estejam um tanto quanto escanteados em outros clubes grandes, ou jogadores que se destacaram em clubes de menor expressão. Peguemos alguns jogadores do Corinthians que atuaram no dia 21 de abril, quando o time derrotou o São Paulo e sagrou-se campeão do Paulista :
Cássio – foi pro Corinthians em 2012. Em 2010/11 fez apenas 3 jogos pelo PSV.
Manoel – emprestado pelo Cruzeiro.
Pedro Henrique – base.
Danilo Avelar – emprestado pelo Torino.
Ralf – em sua primeira passagem, saiu do Grêmio Barueri.
Gustagol – transferência do Criciúma em 2016.
Pedrinho – base.
Há, ainda, Jadson, que saiu do Tricolor em 2014 com um jogo.

Até mesmo o Santos já desenvolveu o seu: um time que utiliza sempre muitos jovens (os meninos da vila, quem não lembra?) em meio a um ou outro jogador mais experiente, com pontas velozes e dribladores. Em 2019, por sinal, apresenta o elenco com menor média de idades da Série A, com veteranos como Carlos Sanchez (34 anos), Victor Ferraz (31 anos) e Vanderlei (35 anos). Não é difícil recordar, também, daquele peixe com Ricardo Oliveira, Renato e o mesmo Vanderlei rodeados por joias oriundas das categorias de base. Mais uma vez, não necessariamente por conveniência, mas também por uma realidade financeira e, uma vez que jogadores da casa são mais baratos aos cofres do clube, usa-se eles.

Concluindo, a instabilidade no comando técnico e principalmente no estilo de jogo provoca a situação que nos encontramos hoje. A diretoria precisa entender que não se contrata um bom técnico para que ele venha e desenvolva um padrão, mas a própria busca na contratação do profissional deve ser pautada e guiada por um que esteja em convergência com o padrão-São Paulo de jogar. Que se sente e se converse: seremos que tipo de time daqui em diante? E, desde então, de treinador a fisioterapeuta, todos os profissionais a serem contratados deverão ter uma mesma linha de trabalho que a definida.

Foto : Mauricio Rummens