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31/05/2019 Por Dario Campos 1

Uma questão de cultura (Opinião)

O São Paulo Futebol Clube apequena-se.

Tricampeão mundial, tricampeão da Libertadores, hexacampeão brasileiro, o clube que chegou a ostentar o maior volume de títulos de expressão por ano de existência no futebol nacional tornou-se um inexpressivo coadjuvante.

Já não cabe falar em “crise”, menos ainda em “fase”, pois a decadência é linear, não momentânea; é de retrospecto, e não de resultado; sobretudo, é institucional e vem se agravando a cada ano, com perspectivas de solução cada vez mais distantes. O volume de fracassos do São Paulo no período 2009-2019 –incluindo vexames em TODOS os torneios com formato de copa, contra adversários sem qualquer expressão ou condição orçamentária, já obscurece a sua história e compromete o futuro.

Foto : Diego Lima/AFP

Mais que um elenco, jogador, técnico ou esquema, é a filosofia de gestão que relega o São Paulo à condição de mero participante de todas as competições desde 2009 (a Copa Sul-Americana definitivamente não tem envergadura, mormente numa campanha sem um ÚNICO adversário ‘de camisa’, com mais empates que vitórias e decisão contra um adversário minúsculo). Esse time débil, pisoteado reiteradamente em clássicos, é o triste reflexo da CULTURA do São Paulo, sua postura diante do negócio futebol – desde o modelo político aos critérios de contratação e às relações com jogadores e profissionais da área técnica.

O São Paulo, como a esmagadora maioria dos clubes sul-americanos, mantém uma estrutura feudal de administração: o comando é definido pelos laços de vassalagem entre conselheiros (alguns dos quais se perpetuam por uma tácita transmissão hereditária) e um suserano, que arrenda cargos e trabalha para manter-se, e a seu restrito grupo, indefinidamente no poder. 

Foi essa estrutura arcaica, centralizadora e viciada que permitiu o absolutismo suicida de “regimes” como os de Eurico Miranda, Mustafá Contursi e Alberto Dualib e, no ano da graça de 2011, propiciou o golpe ao estatuto do São Paulo, permitindo nova reeleição e o terceiro mandato de Juvenal Juvêncio – algo inédito na história do clube, evidenciando a sua falência ética e fragilidade institucional.

Juvenal Juvêncio, ex-presidente do SPFC. Foto : LUIS H. BLANCO/ NEWS FREE

É óbvia, conhecida e exaustivamente repetida a necessidade de se divorciar a área social do departamento de futebol, a fim de se promover a estruturação empresarial dos grandes clubes; é mandatória a implantação de núcleos de administração, compostos por executivos experientes, devidamente remunerados e assessorados por especialistas das áreas financeira, de marketing, recursos humanos e gestão do futebol – acabando de vez com o modelo no qual gente mais preocupada com o cardápio do refeitório ou a quantidade de espreguiçadeiras diante da piscina define os rumos de uma agremiação acompanhada por dezenas de milhões de torcedores (leia-se consumidores), como se elegesse o síndico de um edifício.

As raras exceções só aparecem após grandes tragédias. Assim foi com o Palmeiras da Parmalat (1992-2000), de Paulo Nobre (até 2016) e da Crefisa.

Exemplo maior da ruína causada pela promiscuidade entre o futebol e o social, o “Porco” já havia sido salvo da completa obscuridade pelo esboço de administração profissional enfiado goela abaixo dos conselheiros pela Parmalat na década de 1990. Deu-se um período de conquistas, mas o clube jamais aproveitou os recursos generosos da co-gestora para se reestruturar.

Quando a fabricante de laticínios começou a enfrentar dificuldades, em 1999, realizou uma verdadeira liquidação do grupo campeão da Libertadores. Sem elenco e sem reservas financeiras, o Palmeiras entrou em colapso. O leite azedou, o rival da Zona Oeste voltou a ser parque de diversões da tradicional ‘turma do amendoim’ e despencou duas vezes para a Segunda Divisão (por um triz, não foram três). Pior: ainda viu-se investigado por suposto envolvimento no esquema de desvio de dinheiro e fraude fiscal que levou a gigante italiana a um rombo de €14,3 bilhões.

Como todos sabemos, a realidade atual é bem diferente, e o Palmeiras parece no rumo certo para dominar o futebol nacional, não por competência institucional, mas por ter-se tornado parte de um conglomerado altamente rentável e muito menos sujeito a deslizes familiares como os que vitimaram a Parmalat.

Antes, teve de praticamente quebrar, a ponto de acumular contas de luz em atraso e ser salvo por dois bilionários torcedores: primeiro, a Pessoa Física Paulo Nobre, em seguida (e por obra do primeiro), pela Pessoa Jurídica Crefisa, personificada pela advogada Leila Pereira – presidente da empresa e mulher do fundador, o alviverde José Roberto Lamacchia.

(Uma reflexão aqui: é interessante observar como dois palmeirenses apaixonados – e com visão de negócios – injetaram centenas de milhões no clube e o elevaram a potência continental (ao menos financeira), enquanto, no mesmo período, gente com sobrenome importante e herdeira de tricolores históricos parasitou os cofres do São Paulo, transformou-o em entreposto de venda de atletas jovens e contribuiu decisivamente para a continuidade de sua decadência – cuja origem é o loteamento do poder engendrado ao longo do segundo mandato de Juvêncio, consubstanciado no terceiro e, até hoje, em plena vigência.)

Antes da mais recente ressurreição palmeirense, foi o Corinthians (do Lula e da Odebrecht?) a protagonizar o drama do cai-levanta.

Controlado por Alberto Dualib – cujos conchavos garantiram amplo domínio do conselho –, o clube envolveu-se em parcerias obscuras, foi investigado por operações criminosas, venceu um Campeonato Brasileiro de forma muito mais que suspeita (conforme reconhecido pelo próprio Dualib) e, sem controle dos contratos de seus principais atletas, viu-se abandonado pelos “sócios-investidores” em 2006, acabando por ser rebaixado em 2007. 

Talvez motivados pelo medo (Dualib chegou a ser ameaçado de morte e teve sua casa sitiada por organizadas), Andrés Sanchez e Luiz Paulo Rosenberg (ambos integrantes da diretoria que afundou o clube) trataram de agir rápido e fazer aquilo que deveria ser o bê-á-bá para um clube com tamanha popularidade: impuseram maior controle à contabilidade, investiram de forma planejada no potencial de marketing da marca – primeiro explorando a comoção da queda e, depois apostando as fichas em um case capaz de multiplicar a exposição em todas as mídias (Ronaldo); depois trataram de articular com a Nike uma campanha publicitária sem precedentes no País; e, igualmente importante, blindaram o Departamento de Futebol, assegurando aos técnicos autonomia e poderes decisórios na formação do elenco, com a assessoria de um gerente remunerado e o suporte de uma área de análise de desempenho. O principal efeito nessa transformação foi o surgimento de uma sólida filosofia de montagem de elenco e de uma cultura de jogo muito apropriadas para a realidade do futebol nacional, como o tempo mostrou.

Concomitantemente, Andrés Sanchez aproximou-se do poder e tratou de fazer pessoalmente o corpo-a-corpo dos bastidores, aproximando-se de Ricardo Teixeira no exato momento em que Juvenal Juvêncio e Fábio Koff ensaiavam um levante do Clube dos 13 contra a CBF e – esta é a hora de rir – a Rede Globo. Como se sabe, Sanchez saiu vencedor e capitalizou vastamente em favor de seu clube, com a fundamental contribuição do então Presidente da República, hoje devidamente enjaulado, mas ainda podendo comemorar títulos anuais de seu clube de coração.

Longe de entender que qualquer dos exemplos acima mencionados seja sequer próximo do ideal e ainda mais longe de acreditar na utopia de ver o São Paulo transformado em clube-empresa de alto desempenho, acredito que seja obviamente fundamental implantar uma FILOSOFIA DE GESTÃO ORIENTADA PARA A CONQUISTA ­– vetor essencial da valorização da marca e ampliação de sua base de consumidores no universo futebolístico. Para tanto, na visão particular deste torcedor, é necessário adotar um padrão no qual:

– as decisões sejam, de fato, delegadas a uma mesa de EXECUTIVOS REMUNERADOS, com reconhecida competência em administração, marketing, finanças e, naturalmente, futebol, obedecendo a critérios técnicos e não mais à subjetividade e aos interesses de grupos ou indivíduos ligados ao social

– criar um conselho de perfil corporativo, enxuto e exclusivamente formado por são paulinos altamente qualificados,  para fiscalizar o trabalho dos executivos, de forma a defender os interesses maiores do business futebol. A composição dessa estrutura será determinada pela capacidade nas áreas de especialidades, e os profissionais serão EMPREGADOS PELA UNIDADE DE NEGÓCIOS FUTEBOL, em vez de eleitos por sócios

– a gestão financeira seja auditada de forma independente, e qualquer desvio ou vício de função seja devidamente investigado e tenha resposta ATIVA nas esferas judiciais

 
– uma POLÍTICA DE CONTRATAÇÃO CLARA E EFICAZ, orientada para a composição de elencos competitivos, levando em conta a condição e o histórico físico e comportamental de cada atleta, sua regularidade e capacidade de proporcionar a dinâmica e compactação imprescindíveis no futebol atual


– uma CULTURA DE JOGO, cultivada verticalmente da base ao profissional, que será orientadora – e facilitadora – tanto da formação na base como das contratações (*)

Tanto o rival novo rico de Perdizes como o endividado, mas multicampeão, rival da ZL ressurgiram do pó – ao qual foram levados por uma mentalidade de “clube de bairro”. Fora do nosso estado, Botafogo e Vasco chafurdam na insignificância há décadas, e o Flamengo renasceu da falência sem o trauma do rebaixamento, por questão de detalhes como o tamanho de sua torcida, o pânico da mídia em perder audiência e a facilidade de acesso aos bastidores da CBF e da Justiça Desportiva. Os homens que comandam o São Paulo, embevecidos de glórias que, cada vez mais, “vêm do passado” (e ali ficaram), ignoram tudo isso, mantêm a arrogância, engordam a circunferência abdominal, agindo como se o clube ainda fosse a quintessência do sucesso no esporte. Não é. E faz muito tempo. E, sinceramente, não pode sequer ser considerado grande, no que se refere ao presente factual.

(*) Observação: no que se refere à “cultura de jogo”, o caso mais conhecido mundialmente é o da influência da escola holandesa do Futebol Total na filosofia tática do Barcelona, a partir do comando técnico de Johan Cruyff.

O título da Champions com o próprio Cruyff, em 1992, e sobretudo os 14 títulos da Era Guardiola (incluindo duas Champions, dois Mundiais e o tricampeonato espanhol) consagraram a cultura de retenção da posse, marcação alta e movimentos coordenados em bloco, praticada desde as categorias de base, em La Masia.

Nada no Brasil se compara, até pela abissal diferença na capacidade de investimento, mas há que se ter a humildade de reconhecer a sólida e vencedora estrutura tática estabelecida no Corinthians desde o seu rebaixamento. Do time montado por Mano Menezes para disputar a Segunda Divisão em 2008, passando pelos dois Brasileiros e a campanha invicta na Libertadores e o Mundial, com Tite, até o mediano Campeão Paulista neste 2019, o Corinthians mantém quase invariavelmente o perfil que prioriza a consistência defensiva, a qualidade do passe na transição meio-campo/ataque, as inversões de bola e a intensidade ofensiva dos alas. Desde então, enfileira conquistas e, nas poucas ocasiões em que se desviou desse rumo (com Adílson Baptista, Oswaldo de Oliveira e Cristóvão Borges, por exemplo), fracassou.

Ironicamente, o modelo de sucesso do nosso algoz alvinegro, ensejado pela catástrofe de 2007, é muito parecido com a forma como o próprio São Paulo foi montado entre 2003 e 2007, após uma década de fracassos e uma sucessão de times técnicos que fracassavam na hora da decisão. Marcelo Portugal Gouveia e, sendo justo, Juvenal Juvêncio, atenderam à óbvia exigência de buscar jogadores de perfil brigador e vibrante, junto com um técnico que já se notabilizava por montar equipes com espírito de luta (Cuca). Em seguida, veio um disciplinador (Leão); depois um técnico austero e com experiência internacional (Autuori – que tentou mudar o sistema após a Libertadores e nos fez flertar com o descenso até voltar ao sistema vencedor); e, com a saída deste, um sujeito que priorizava a consistência defensiva (Muricy). Não importa o gosto pessoal de cada um por este ou aquele, mas de Cuca a Muricy havia ao menos um traço comum e essencial: a competitividade, sobretudo em “jogo grande”.

O que no São Paulo foi episódico – e já não existe –, no Corinthians tornou-se INSTITUCIONALIZADO. Enquanto para os lados do Tatuapé (ou de Itaquera, como queiram), mantém-se uma linha mestra de conduta na escolha do perfil dos jogadores e se cultiva a disciplina tática e a tal “alma guerreira” como premissas para o interesse por um atleta, pelos lados do Morumbi (ou da Barra Funda) assistimos, nos 11 últimos anos, a uma interminável sucessão de técnicos de estilos completamente diferentes, alguns decadentes, outros sem currículo, além da contratações e liberações de jogadores em “pacotes”, quase invariavelmente no meio das temporadas.